quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A redoma de vidro, de Sylvia Plath

Sylvia Plath quando bolsista da Mademoiselle, em 1953.
A imagem ficou registrada em A redoma de vidro (ver trecho no final do texto)

A redoma de vidro, de Sylvia Plath reúne dois livros. Um é composto pelos nove primeiros capítulos. E o outro pelo restante do livro. A constatação evidencia ainda uma condição: parece que foi escrito em duas etapas distintas. Estritamente autobiográfico, o primeiro livro começou a ser escrito quando a escritora estadunidense foi, assim como a personagem deste romance, premiada com uma estadia em Nova York por uma daquelas muitas revistas para mulheres que marcaram os anos pós-revolução feminina. E o segundo livro é fruto de uma retomada da escritora ao projeto original e quando já estava atormentada pela obsessão do suicídio, empreitada que conseguirá realizar depois de diversas tentativas ao longo da vida.

O primeiro livro que compõe A redoma de vidro quer ser um romance sobre, entre outras coisas, o lugar social da mulher. A jovem Esther Greenwood sente-se encantada com a vida de luxo e futilidade que leva ao lado de outras tantas meninas da sua idade nesse mês em Nova York. É uma narradora que sonha para si – mesmo não se sentindo integrada ao modus vivendi oferecido – a posição de sua chefe de redação, a feia Jota Cê ou que sonha desinteressadamente com a possibilidade de ganhar a vida como escritora, projeto que antes do sucesso significa fugir da vidinha de Boston e das implicâncias da mãe, uma professora de taquigrafia que sempre cobra da filha à dedicação a um curso do tipo a fim de garantir sua independência financeira.

O fato é que a vidinha sem esforço em Nova York acabará por entregá-la ao comodismo e a cada vez mais o afastamento do tipo de mulher que é quando vive em Boston e logo o apagamento de seus melhores interesses. A extensa agenda de burguesa, quase sempre enfadonha, tolda-lhe as expectativas de, conquistar seu sonhado lugar ao sol, como sempre foi treinada a fazer: ao relembrar o tempo escolar, por exemplo, Esther é sempre a mais centrada e a melhor das alunas, não porque seja perspicaz e inteligente, mas dedicada e interessada nas escolhas que faz.

A distância do modelo de vida para o qual lhe entregam e da situação de ser sempre a melhor, seja porque não encontra sentido aí, seja porque tudo aos poucos se torna enfadonho e repetitivo, garante à personagem uma aguda visão sobre o american way of life e, logo, uma crítica feroz a ele. Sobretudo, na maneira como essa sociedade enxerga e trata as mulheres, o que, por sua vez, se afirmará como a revelação sobre a hipocrisia do discurso veiculado sobre os direitos e a independência da mulher.

Aos olhos de Esther, na sociedade da ampla liberdade, o papel reservado às mulheres é uma repetição de outra maneira das mesmas condições e modelos forjados pela cultura falocêntrica: as mulheres são fúteis, devem ser educadas para atividades e preocupações de igual natureza, e, ainda são as que devem escolher bons partidos para casarem-se, serem boas donas de casa e mães – estes são, inclusive, os subsídios para os conteúdos das tais revistas femininas ou de escolas e universidades voltadas para mulheres. A única coisa que parece fugir um pouco dessa necessidade de manutenção de um statos quo são as profissões ligadas ao uso da escrita. Ainda assim, as atividades de escrita estão diretamente ligadas à compreensão burguesa sobre o ócio e a este a dedicação é acertadamente feminina. A cultura do consumo forjou, então, o discurso feminista de libertação das mulheres pela prisão delas num círculo vicioso e ainda mais danoso que o machismo selvagem porque as fizeram presas numa ideologia que ora repetem os modelos de sempre ora ressignificam o que ditavam as maneiras de ser mulher. Isto é, as novas estruturas estão muito assemelhadas com as do auge do patriarcado.

A sociedade de Esther é a marcada pela moda, pela execução e exposição da aparência, pela obsessão com os corpos. Nesse ínterim, é notória a maneira como a personagem descreve as figuras que cruzam seu caminho: sempre atenta ao detalhe de como estão vestidas e sobretudo com o tom irônico sobre o corpo, numa obsessão quase anoréxica de repreensão da silhueta disforme das pessoas. O contexto histórico da narrativa de A redoma de vidro é o da capitalização da aparência como novo ideal de saúde e de beleza das pessoas – algo que, como sabemos, só se acentuará mais tarde.

Nessa redoma, Esther estará sempre alheada ou interessada em fazer o contrário do imposto por esse modelo social. Não é que seja uma revolucionária feminista, mas porque é aquela com uma visão não-acomodada ou ingênua como as demais de seu círculo. A personagem de Sylvia Plath é a que está sempre à procura de outras possibilidades porque as oferecidas são as da mesmidade. Vale citar, a decisão de, no meio de um engarrafamento no trânsito, abandonar o táxi que levava ela e amiga para uma das festas da agenda da revista que precisavam cumprir, a fim de prolongar com um desconhecido a conversa encetada por ele depois de ir ao encontro delas em meio dos carros. 

O alheamento a conduzirá sempre para o isolamento e deste para a decepção porque ao estar no outro lugar desejado é sempre o vazio, a mortal solidão e o abandono o que lhe resta. É assim que se sente no bar, depois de perceber que a dedicação do tal desconhecido era somente com sua amiga enquanto que para ela resta o mais insignificante dos homens. Mais tarde, tudo só piora: ao acompanhar a amiga e o affair ao apartamento dele, restará a Esther apenas o papel de cúmplice do envolvimento entre os dois. Desfechos como esses serão corriqueiros e forjará, pelo acúmulo de situações, no levantamento das fronteiras de um espírito preso num mundo próprio cuja atmosfera não é a da revolta mas a da pesada melancolia que culminará com a visão desencantada e do sem-sentido que domina o segundo livro.

O alheamento é fio condutor do estranhamento: aos olhos de Ester todos os homens são estranhos ou ridículos ou mesmo misóginos – vale atentar para o discurso sobre os corpos ou quando Buddy, o amigo com quem melhor se envolve porque com ele desenvolve uma estreita proximidade, coloca-se nu à sua frente ou ainda a maneira como fareja tipos predadores como Marco; não lhe passa pela cabeça que a mecânica do sexo, marcadamente dominada pela força do macho, seja algo capaz de lhe servir de prazer ou libertação do corpo; da mesma maneira, não se vê, como as amigas, seduzidas pelo ambiente do lar e pela maternidade – aqui vale sublinhar a maneira como observa, cética e criticamente, um parto ao lado do amigo para quem sempre pedia histórias e situações de grande relevância.

A obsessão pela experiência é um dos fatores denunciadores da visão desencantada e transita entre lugares diversos na narrativa de A redoma de vidro: ora na incapacidade para a escrita, quando Esther vê-se incomodada por não saber o que escrever e se destacar como escritora porque suas experiências são insignificantes perante a vida, diferentemente de outras suas contemporâneas; ora no encerramento do mundo e dedicação exclusiva para consigo ao limite do encantamento pelo trágico e pelo suicídio.



Essa obsessão é, como dissemos, o mote para o segundo livro. Aqui, Sylvia Plath enterra toda a riqueza temática que se abria no início do romance. Ao menos é o que se evidencia em grande parte dos capítulos a partir do décimo; aí, parece que não sobra nada se não as tentativas falidas de suicidar-se. Marcadamente repetitiva, o leitor encontra apenas um jogo de enredamento entre a personagem e os planos silenciosos de entrega à morte. Isto é, o desnudamento de todas as forças instintivas e culturais de autopreservação do corpo e da vida.

É por essa razão que este texto fala sobre a existência de dois livros e, por conseguinte, dois contextos, que dão forma à narrativa de A redoma de vidro. Também não é só a violenta mudança de tema; é a mudança de tom da linguagem. No primeiro, estamos ora entre olhar movido pelo encantamento como se um explorador num novo mundo, ora entre certo tom de denúncia, marcado pela observação deslocada do eu ante seu mundo; no segundo, é sempre o constante olhar de desapego, negação, e progressivo desencanto ante tudo. É simbólica, a transição entre a visão da mulher sonhadora para a mulher angustiada quando a Esther joga fora todas as roupas que ganhou ou comprou na estadia em Nova York, antes do retorno para casa.

Fragmentado e sempre interessado em revelar objetivamente o desfecho das situações – tal como acontece nos nove primeiros capítulos – a independência do chamado segundo livro não é uma dominante. A internação de Esther num manicômio e depois sua retirada para uma casa de repouso graças à intervenção da mesma senhora que custeia a bolsa de permanência da personagem em Nova York, reanima o fôlego temático dominante no primeiro livro. É quando o tema da loucura se insere como se uma constante feminina, realinhando a narrativa com a antiga história que reservou sempre as mulheres o perfil de alucinadas, histéricas, visionárias e capazes de toda sorte de atitudes porque sua natureza estaria condicionada pelo gênio do mal.

A maneira como Sylvia Plath relata esse itinerário entre manicômios e casas de repouso para mulheres é a prova de que esta outra dominante dos períodos da infância da humanidade parece sobreviver, novamente, de maneira mais acentuada, no seu tempo. É que todo aquele caráter místico que alguma vez fez das mulheres criaturas mediadoras entre o terreno e divino – e logo seres especiais –, por exemplo, é tornado em condição condenatória e, logo, em justificativa para a prisão e a condenação com os tratamentos baseados na docilização forçada dos corpos.

Engenhosamente, Plath une duas pontas de um mesmo barbante: o da negação do lugar social das mulheres. E é essa a constante capaz de garantir a unidade entre as duas partes virtuais de A redoma de vidro. A diversidade que assinala a visão de dois livros num só é apenas uma maneira de registro entre o sonho e sua falibilidade – montanha-russa da vida e situação comum a todo indivíduo interessado dotado do interesse de se indispor contra o destino. No mais, tanto no mundo chamado são como no mundo doente, às mulheres, constata a escritora, sempre são reservadas o pior das condenas. A saída dessa redoma parece nunca ser espontânea e nem em sua totalidade porque passa pela ruptura de ideologias. O mal é que se se rompe com uma fatalmente se cai em outra.

***

(fragmento da obra)

– Vamos lá, só um só sorriso.

Eu estava sentada na namoradeira de veludo rosa do escritório de Jota Cê, segurando uma rosa de papel e olhando para fotógrafo da revista. Fui a última das doze a posar para a foto. Eu havia tentado me esconder na sala de maquiagem, mas não funcionou. Betsy descobriu meus pés sob a porta.

Eu não queria tirar a foto porque sabia que ia chorar. Eu não sabia o motivo, mas sabia que se qualquer pessoa falasse comigo ou me olhasse de perto as lágrimas pulariam dos meus olhos e os soluços pulariam de minha garganta e eu choraria por uma semana. Podia sentir as lágrimas se acumulando e se agitando, como água na borda de um copo cheio e instável.

Era a última série de fotos antes da revista ir para a gráfica e nós todas voltarmos a Tulsa, Biloxi, Teaneck, Coos Bay ou qualquer que fosse o lugar de onde tivéssemos vindo, e devíamos ser fotografadas com adereços que mostrassem o que queríamos ser.

Betsey foi fotografada com uma espiga de milho para mostrar que queria ser mulher de fazendeiro, Hilda com a cabeça careca e sem rosto de um manequim de chapelaria para mostrar que queria desenhar chapéus, e Doreen com um sári bordado a ouro para mostrar que queria fazer trabalho social na Índia (depois ela me contou que na verdade não queria isso – só queria botar as mãos num sári). 

Quando me perguntaram o que eu queria ser, eu disse que não sabia.

– Ah, claro que você sabe – disse o fotógrafo.

– Ela quer ser tudo – disse Jota Cê, espirituosa.

Eu disse que queria ser poeta.

Então eles começaram a imaginar que objeto eu poderia segurar.

Jota cê sugeriu um livro de poemas, mas o fotógrafo disse que não, era óbvio demais. Devia ser algo que inspirava os poemas. Foi aí que Jota Cê me deu a rosa solitária de papel de caule longo, que estava presa em seu mais novo chapéu.

O fotógrafo passou um tempo preparando a iluminação.

– Mostre pra gente como escrever um poema te deixa feliz.

Encarei o céu azul através das folhas de seringueira na janela de Jota Cê. Algumas nuvens cenográficas viajavam da direita para a esquerda. Fixei o olhar na maior delas, como se, quando ela saísse de vista, eu pudesse ter a sorte de desaparecer junto.

Achei que era muito importante manter minha boca nivelada.

– Dá um sorriso pra gente.

Enfim, obedientes, meus lábios começaram a curvar-se para cima, como a boca de boneco de ventríloquo.

– Ei – protestou o fotógrafo, numa súbita premonição –, assim parece que você vai chorar.

Não consegui segurar.

Enterrei o rosto no veludo rosa do sofá de Jota Cê e, com imenso alívio, as lágrimas salgadas e os barulhos miseráveis que vinha se acumulando dentro de mim toda a manhã espalharam-se pela sala.

Quando levantei a cabeça, o fotógrafo tinha desaparecido, assim como Jota Cê. Me senti frágil e traída, como a pele que uma animal terrível deixa para trás. Era um alívio ter me livrado do animal, mas parecia que ele tinha levado consigo o meu espírito e tudo que suas patas conseguiram agarrar.


Um comentário:

  1. que resenha maravilhosa! nunca li nada que fizesse tão jus ao livro

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